O corredor B do galpão 14 cheira a papelão molhado e café requentado. São seis da tarde de uma terça-feira comum em Pinhais, cidade vizinha a Curitiba, e o turno da noite está prestes a começar. Só que desta vez quem empilha as caixas de autopeças não é um operador com cinta lombar — é um braço mecânico amarelo, do tamanho de um poste de luz, que se move com a calma de quem nunca sentiu dor nas costas.

A Esquina passou três dias neste armazém e em mais dois do Complexo Industrial de Curitiba para entender como a automação está chegando à logística paranaense. Não encontramos robôs dançando nem telões de ficção científica. Encontramos galpões amplos, piso de concreto gasto e gente que aprendeu, em poucos meses, a conviver com máquinas que às vezes travam no meio do turno e deixam todo mundo parado olhando para a tela.

Menos costas, mais tela

Cláudio Ferreira, 44 anos, trabalha no galpão 14 há onze. Antes da instalação do robô, em março deste ano, ele passava o turno empilhando caixas de trinta quilos numa esteira que não parava. «Minha fisioterapeuta conhecia meu nome de vista», ele diz, rindo sem muita graça. Hoje Cláudio monitora três monitores numa cabine de vidro elevada. Quando o braço mecânico detecta uma caixa fora de medida, é ele quem intervém — não para carregar, mas para ajustar o sensor e reiniciar o ciclo.

A empresa, que pediu para não ser identificada por questões contratuais com fornecedores, diz que a produtividade subiu 28% e que as queixas de lesão por esforço repetitivo caíram pela metade no primeiro trimestre. O sindicato da categoria, por outro lado, registrou três demissões no mesmo período — número pequeno, mas que preocupa quem vê o robô como substituto, não como parceiro.

«Ninguém me avisou que ia precisar de curso de informática», conta Cláudio. A empresa ofereceu quarenta horas de treinamento, mas boa parte dos operadores mais velhos teve dificuldade com a interface em inglês do equipamento importado. Um técnico da manutenção teve que traduzir os alertas e colar um cartaz com os códigos de erro mais comuns na parede da cabine.

Robô nacional em teste

No segundo galpão que visitamos, em São José dos Pinhais, a situação é diferente. A empresa está testando um braço robótico montado em Joinville, Santa Catarina, com interface em português e suporte técnico na mesma região. O equipamento ainda é mais lento que o importado — leva quatro segundos a mais por palete — mas o gerente de operações, Paulo Henrique Dias, aposta que a diferença vai sumir em dois anos.

«O que importa é ter alguém para ligar quando trava às duas da manhã», diz Paulo. Ele conta que o fornecedor estrangeiro do primeiro robô demorou cinco dias para enviar um técnico quando o equipamento apresentou falha no eixo três. Com o nacional, o prazo caiu para vinte e quatro horas.

«Antes eu quebrava as costas empilhando. Agora eu quebro a cabeça com planilha.» — Cláudio Ferreira, operador de logística

O turno da noite

O terceiro galpão, no próprio CIC de Curitiba, ainda não tem robô instalado — mas já tem o espaço reservado e a fiação pronta. A previsão é agosto. Os operadores do turno da noite, que ganham adicional de 30%, estão divididos: uns veem a máquina como alívio físico, outros temem que a automação reduza a necessidade de três turnos para dois.

A engenheira de segurança do trabalho responsável pelo projeto, Juliana Prado, garante que não há plano de corte de pessoal. «O volume de expedição cresceu. Precisamos das duas coisas — gente e máquina.» Mas Juliana reconhece que o perfil do operador está mudando: menos força física, mais atenção a detalhes e disposição para aprender software.

No vestiário, no final do turno, a conversa é de bar. «Meu filho quer fazer técnico em automação», diz Cláudio. «Antes eu achava bobagem. Hoje eu indico.» Do outro lado do armário, um operador mais jovem resmunga que o curso custa caro e que a empresa deveria pagar. Os dois concordam num ponto: o robô não vai embora. A pergunta é quem fica ao lado dele.

A Esquina vai acompanhar os três galpões nos próximos seis meses. Se a sua empresa está passando por algo parecido — ou se você foi demitido depois de um robô chegar — escreva para [email protected].