Marcos Ribeiro tem as mãos com cheiro de graxa que nenhum sabão resolve de primeira. Ele é técnico de manutenção de braços robóticos numa planta de autopeças em Araucária, região metropolitana de Curitiba, e cuida de dezessete máquinas que nunca pedem café mas exigem atenção constante. Conhecemos Marcos numa manhã de quarta-feira, entre uma lubrificação programada e um alerta de temperatura no eixo quatro do robô da linha de solda.

A Esquina o procurou depois de ouvir, em três reportagens seguidas, que «o robô vai substituir o operador». Marcos ri quando repetimos a frase. «Alguém precisa lubrificar o robô», ele diz. «E quando trava — e sempre trava — alguém precisa estar aqui.»

De mecânico de prensa a cuidador de braço

Marcos começou na planta há quatorze anos, como auxiliar de manutenção de prensas hidráulicas. Em 2019, a empresa instalou os primeiros braços robóticos na linha de montagem de suspensão. Ele foi um dos três técnicos escolhidos para o curso de seis meses — quatro em Curitiba, dois no exterior, num centro de treinamento do fabricante.

«Eu achava que era coisa de computador», conta. «Mas no fundo é mecânica. Engrenagem, eixo, sensor. Só que agora tem software no meio.» Hoje Marcos ganha 40% a mais do que ganhava como mecânico de prensa, mas trabalha sob pressão diferente: quando um robô para, a linha inteira para — e cada minuto custa caro.

Esquina: Qual foi a maior surpresa ao começar com robôs?

Marcos: A quantidade de poeira. Parece bobagem, mas poeira de alumínio entra no sensor e o braço perde precisão. A gente instalou cortinas de ar em cinco máquinas por causa disso. O manual não falava nada de poeira paranaense.

«O robô não substitui ninguém — muda quem precisa»

Marcos é cauteloso quando o assunto é emprego. Ele viu dois operadores de prensa serem realocados — um para logística, outro para inspeção de qualidade — quando os robôs chegaram. Não viu demissão em massa. Mas viu a empresa contratar menos gente nova para a linha de montagem.

«O robô não substitui ninguém diretamente», ele diz, escolhendo as palavras. «Mas muda quem a empresa precisa contratar. Antes queriam braço forte. Agora querem gente que entende de programação básica e que não tem medo de olhar para uma tela.»

«Quando trava numa sexta às quatro da tarde, o fornecedor não vem. Sou eu, uma chave Allen e muita calma.» — Marcos Ribeiro

Ele conta que o pior momento foi numa sexta-feira às quatro da tarde, quando o braço da linha três travou com peça presa no gripper. O fornecedor estrangeiro não atendeu. A produção tinha pedido para entregar até segunda. Marcos passou a noite na planta, desmontou o gripper, limpou o sensor e religou tudo às onze da noite. «Meu filho faz aniversário no sábado», ele lembra. «Cheguei em casa com cheiro de óleo e o bolo já tinha sido cortado.»

O que ele diria para quem quer entrar na área

Marcos tem um sobrinho de dezenove anos que quer fazer técnico em automação industrial no SENAI. Ele apoia — com ressalvas. «O curso é bom, mas o mercado quer experiência. Meu conselho é: faz estágio em planta de verdade, não só laboratório. Robô de laboratório não solta parafuso no meio do turno.»

Esquina: Você tem medo de que um robô mais novo te substitua?

Marcos: Tenho medo de que comprem robô que ninguém aqui sabe manter. Já vi empresa comprar equipamento caro e depois ter que chamar técnico de São Paulo toda vez que dá problema. O robô mais novo não me substitui — mas a empresa que não investe em manutenção local se lasca.

Ele mostra a caixa de ferramentas que carrega — chaves Allen de vários tamanhos, multímetro, pano limpo enrolado. «Isso aqui não sai de moda», diz, batendo no metal. Na parede do escritório da manutenção, um calendário marca as próximas lubrificações programadas. Dezessete robôs, dezessete datas. Alguém precisa lembrar. Por enquanto, esse alguém é o Marcos.

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