Robôs · Cidades
Por Renata Moraes · 12/06/2026
O cheiro de papelão molhado ainda impregna o corredor B do galpão 14, mas quem carrega as caixas hoje é um braço amarelo que nunca reclama do frio. Na semana passada, fomos até o CIC — o Complexo Industrial de Curitiba — para entender como a automação está redesenhando o chão de fábrica na capital paranaense. O que encontramos foi menos ficção científica e mais conversa de vestiário: gente que aprendeu a conviver com máquinas que às vezes travam no meio do turno.
Três empresas de logística abriram as portas para a Esquina. Duas já operam robôs de paletização comprados no exterior; a terceira está em fase de testes com equipamento nacional, montado em Joinville e instalado em Pinhais. Em todos os casos, a promessa é a mesma: menos lesão por esforço repetitivo, mais velocidade na expedição. Só que na prática o ritmo mudou de outro jeito — os operadores agora passam o turno olhando telas, ajustando rotas e chamando o técnico quando o braço mecânico para de responder.
«Antes eu quebrava as costas empilhando», disse Cláudio, 44 anos, que trabalha no galpão há onze. «Agora eu quebro a cabeça com planilha.» Não é reclamação — é constatação. A Esquina vai acompanhar essa transição nos próximos meses, visitando os mesmos corredores para ver se a promessa de «trabalho mais leve» se confirma ou se aparecem novas formas de pressão no relógio de ponto.
O Paraná concentra hoje cerca de doze por cento dos braços robóticos instalados em galpões logísticos do Sul do país, segundo estimativa do sindicato da categoria. O número parece pequeno perto de São Paulo, mas cresce rápido — e chega primeiro aos municípios da região metropolitana de Curitiba, onde o custo do terreno empurra as empresas a ganhar metros verticais e velocidade na expedição.
Na Padaria do Seu Geraldo, no Bairro Alto, a automação tem outro rosto: um controlador de temperatura que liga o forno às cinco da manhã para o dono dormir mais meia hora. «Minha esposa diz que eu ronco menos», ele conta. Em São José dos Pinhais, a dona Marlene instalou um divisor de massa que corta cinquenta pães por minuto — e liberou a filha para fazer o técnico em nutrição.
E quem cuida dessas máquinas quando travam? Marcos Ribeiro, técnico de manutenção em Araucária, passou a noite inteira numa sexta-feira desmontando o gripper de um braço robótico porque o fornecedor estrangeiro não atendeu. «Alguém precisa lubrificar o robô», ele diz. A Esquina existe para contar essas histórias — não com slide de PowerPoint, mas com cheiro de pão, graxa e papelão molhado.